IA para advogados: por onde começar e quais cuidados tomar?
Guia para o advogado e o sócio de escritório começarem a usar IA com segurança: sigilo, verificação de citações, política de uso e as primeiras tarefas.

Resposta curta
O advogado deve começar a usar IA pelos cuidados, não pela ferramenta: proteger o sigilo do cliente, conferir toda citação na fonte oficial e assumir a responsabilidade pelo que assina. Com essas três regras definidas, a IA entra primeiro em tarefas de baixo risco, como resumos, comunicação com o cliente e gestão do escritório, e só depois na produção jurídica.
Neste artigo
- O que a IA faz bem e o que ela não faz no escritório
- Passo 1: conheça as regras que já existem
- Passo 2: escreva a política de uso do escritório em uma página
- Passo 3: configure a ferramenta e anonimize por padrão
- Passo 4: dê contexto ao escritório, uma vez
- Passo 5: comece pelas tarefas de baixo risco
- Passo 6: avance para o trabalho jurídico com a regra de verificação
- Os erros mais comuns de quem está começando
- Ferramenta genérica ou ferramenta jurídica?
- Por onde seguir
Em 2025, o Tribunal Superior Eleitoral multou um advogado por litigância de má-fé. O motivo: o recurso citava julgados que não existiam no repositório do próprio tribunal, segundo a notícia, produzidos com inteligência artificial. Além da multa de cinco salários mínimos, o TSE mandou ofício à OAB da Bahia para apuração disciplinar.
A ferramenta não assinou a peça. O advogado assinou.
Esse é o ponto de partida certo para qualquer advogado que quer usar IA: não a pergunta "qual ferramenta é melhor", e sim "quais regras eu preciso ter antes de abrir a ferramenta". Com as regras definidas, a IA ajuda muito. Sem elas, ela produz texto convincente que pode estar errado.
Este guia é para o advogado autônomo e para o sócio que dirige um escritório. São seis passos, começando pelos cuidados e terminando nas tarefas do dia a dia. Nenhum exige conhecimento técnico.
O que a IA faz bem e o que ela não faz no escritório
Assistentes de IA generativa, como ChatGPT, Claude e Gemini, são muito bons com texto. Eles leem um documento longo e resumem, reorganizam argumentos, reescrevem um parágrafo técnico em linguagem simples, apontam inconsistências em um rascunho e sugerem a estrutura de uma peça.
Eles não são bases de jurisprudência. Quando perguntados sobre um julgado, montam uma resposta plausível com número de processo, relator e ementa, e parte disso pode simplesmente não existir. Também não sabem, por conta própria, se uma norma foi alterada na semana passada.
Portanto, a divisão prática é simples:
- Use a IA para trabalhar o texto que você já tem: resumir, organizar, revisar, explicar, comparar.
- Não use a IA como fonte do que você ainda não verificou: lei, súmula, jurisprudência, prazos, valores.
Quem entende essa divisão no primeiro dia evita o erro que vira notícia.
Passo 1: conheça as regras que já existem
Em novembro de 2024, o Conselho Federal da OAB aprovou recomendações para o uso de IA generativa na prática jurídica, elaboradas pelo Observatório Nacional de Cibersegurança, Inteligência Artificial e Proteção de Dados. O texto se organiza em quatro eixos: legislação aplicável, confidencialidade e privacidade, prática jurídica ética e comunicação sobre o uso de IA generativa.
Três orientações importam para quem está começando:
- Cautela com dados que identifiquem o cliente. O que entra na ferramenta precisa respeitar o sigilo profissional e a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
- A IA não substitui a análise do advogado. Ela apoia o trabalho; a conclusão jurídica e a revisão continuam sendo suas.
- Transparência com o cliente. As recomendações orientam informar o cliente sobre o uso da ferramenta, o contexto e as limitações no caso concreto.
As recomendações não criam sanções novas. Mas o Código de Ética e Disciplina continua valendo, e é ele que responde quando uma peça com citação falsa chega ao tribunal.
Passo 2: escreva a política de uso do escritório em uma página
Antes de colar qualquer documento, decida por escrito o que pode e o que não pode. Não precisa de advogado especializado em tecnologia nem de manual de 30 páginas. Uma página resolve, e serve tanto para o advogado sozinho quanto para um escritório com estagiários e associados.
Política de uso de IA do escritório
Ferramentas autorizadas
- Quais ferramentas e em qual plano (conta da empresa, não conta pessoal).
- Configuração de privacidade revisada em: [data].
O que pode entrar
- Textos de lei, decisões públicas, modelos do escritório sem dados de cliente.
- Casos anonimizados (sem nome, CPF, CNPJ, endereço, número do processo).
- Documentos internos de gestão do escritório.
O que nunca entra
- Dados que identifiquem cliente ou parte contrária.
- Documentos sob segredo de justiça.
- Dados de saúde, dados financeiros e dados de menores.
Regras de revisão
- Toda citação de lei, súmula ou julgado é conferida na fonte oficial antes de ir para a peça.
- Nenhum texto gerado vai ao cliente ou ao tribunal sem leitura integral de um advogado.
- Quem assina a peça responde pelo conteúdo, inclusive o que veio da IA.
Comunicação com o cliente
- Como e quando o cliente é informado sobre o uso de IA.
Revise essa página a cada seis meses. As ferramentas mudam rápido, e as orientações da OAB também preveem atualização periódica.
Passo 3: configure a ferramenta e anonimize por padrão
Comece pela ferramenta que o escritório já paga. Você não precisa de uma assinatura nova para dar os primeiros passos, e trocar de ferramenta não resolve o que é falta de método.
Duas configurações vêm antes do primeiro uso:
Plano e privacidade. Leia nos termos do seu plano se as conversas podem ser usadas para treinar os modelos. Nos planos individuais das principais ferramentas, essa opção costuma ficar nas configurações de privacidade e pode ser desligada. Planos para empresas seguem termos comerciais próprios. Use a conta do escritório, não a conta pessoal de cada advogado.
Anonimização como hábito. Antes de colar um trecho de caso, troque os dados que identificam as pessoas. "João da Silva, CPF tal, contra a Construtora X" vira "o autor, pessoa física, contra uma construtora de médio porte". A análise jurídica quase nunca depende do nome. Esse hábito leva segundos e resolve a maior parte do risco de sigilo sem impedir o uso.
Passo 4: dê contexto ao escritório, uma vez
A resposta genérica da IA não é defeito da ferramenta. É falta de contexto.
Ferramentas como Claude e ChatGPT permitem criar Projetos: espaços de trabalho com instruções e arquivos que valem para todas as conversas dentro deles. Crie um Projeto para o escritório e cole nas instruções um bloco como este:
Sobre o escritório
- Áreas de atuação:
- Perfil dos clientes (pessoa física, empresas, setores):
- Tamanho da equipe e quem faz o quê:
Como eu quero as respostas
- Português jurídico claro, sem rebuscamento desnecessário.
- Comece pela conclusão e depois os fundamentos.
- Separe o que está no documento que eu enviei do que é interpretação sua.
- Quando faltar informação, pergunte antes de supor.
Regras fixas
- Nunca invente lei, súmula, julgado, número de processo ou relator.
- Quando citar qualquer norma ou precedente, marque como "A CONFERIR".
- Não dê a resposta como definitiva: aponte riscos e pontos que dependem de verificação.
A regra "marque como A CONFERIR" não impede o erro da ferramenta, mas torna visível o que precisa ser verificado. Isso muda a revisão de "ler tudo desconfiando" para "conferir os itens marcados e ler o resto com atenção".
Passo 5: comece pelas tarefas de baixo risco
A primeira semana não é para petição inicial. É para tarefas em que o erro da IA é fácil de perceber e barato de corrigir. Estas três funcionam bem para começar.
O resumo da reunião com o cliente. Depois do atendimento, cole suas anotações (anonimizadas) e peça:
Organize estas anotações em: fatos relatados pelo cliente, documentos que faltam, dúvidas que ficaram em aberto e próximos passos com responsável e prazo. Não acrescente nada que não esteja nas anotações.
A mensagem ao cliente em linguagem simples. O cliente não entende o andamento processual. Cole o andamento e peça:
Explique este andamento para um cliente leigo, em até seis linhas, sem termos técnicos. Diga o que aconteceu, o que significa para ele e qual é o próximo passo. Tom profissional e tranquilo.
A semana do escritório. Liste os prazos, audiências e reuniões da semana e peça:
Organize esta lista por prioridade e por dia. Aponte conflitos de horário e o que pode ser delegado. Formato de tabela.
Nas três, você confere o resultado em segundos, porque conhece o conteúdo de origem. É assim que se aprende a instruir a ferramenta sem colocar uma peça em risco.
Passo 6: avance para o trabalho jurídico com a regra de verificação
Com a ferramenta configurada e algumas semanas de uso, a IA entra na produção jurídica. O padrão seguro é sempre o mesmo: você fornece o material, a IA trabalha sobre ele, você confere.
Veja a diferença em uma tarefa comum.
Antes:
Faça uma contestação para uma ação de cobrança.
Depois:
Objetivo: estruturar a contestação de uma ação de cobrança de serviços. Papel: atue como advogado revisor de um escritório de contencioso cível. Material: segue a petição inicial anonimizada e as minhas anotações sobre os fatos. Critério: identifique as teses de defesa cabíveis a partir dos fatos, os pontos fracos da inicial e os documentos que eu preciso juntar. Formato: um esqueleto de peça com títulos e, em cada um, os argumentos em tópicos. Não cite julgados. Onde um precedente ajudaria, escreva "buscar precedente sobre [tema]".
A primeira pede para a IA inventar o caso e a fundamentação. A segunda usa a IA para organizar o seu raciocínio e deixa a pesquisa de jurisprudência onde ela precisa estar: nas bases oficiais dos tribunais.
Outros usos que seguem o mesmo padrão:
- Ler um contrato longo e listar cláusulas de risco para o seu cliente, com indicação da cláusula.
- Revisar a clareza de uma peça pronta, sem alterar o mérito.
- Listar os argumentos que a parte contrária provavelmente usará, para você preparar a resposta.
- Comparar duas versões de um contrato e apontar o que mudou.
Os erros mais comuns de quem está começando
Usar a IA como pesquisador de jurisprudência. É o erro mais caro. Pesquisa de precedentes se faz nas bases oficiais. A IA pode ajudar a formular os termos da busca, não a substituir a busca.
Colar o processo inteiro sem anonimizar. Na pressa, o PDF completo vai para a ferramenta, com nomes, documentos e dados de terceiros. A política do passo 2 existe para evitar exatamente isso.
Usar a conta pessoal para trabalho do escritório. O escritório perde o controle sobre o que foi enviado, por quem e com qual configuração de privacidade.
Entregar ao estagiário antes de definir as regras. Quando o sócio não sabe o que pedir nem o que recusar, a equipe usa sem direção e ninguém consegue revisar com critério. A adoção começa por quem dirige o escritório.
Trocar de ferramenta a cada resposta ruim. O problema costuma viajar junto: falta de contexto e de instrução. O bloco do passo 4 funciona em qualquer assistente.
Ferramenta genérica ou ferramenta jurídica?
Existem ferramentas de IA feitas para o mercado jurídico, com bases de jurisprudência integradas, e assistentes genéricos como ChatGPT, Claude e Gemini. Não existe a melhor IA: existe a ferramenta certa para cada tarefa.
Para os primeiros passos, o assistente genérico que o escritório já paga é suficiente. Ele cobre resumo, organização, comunicação e revisão de texto, que são a maior parte do ganho inicial. Ferramentas especializadas e automações fazem sentido depois, quando o escritório já sabe instruir, revisar e medir. Comprar a ferramenta mais completa antes disso é pagar por recursos que ninguém vai usar com segurança.
Por onde seguir
Se você é sócio de escritório e quer saber onde a IA ainda não entra na sua rotina de gestão, o diagnóstico gratuito da Vinq ajuda. São dez perguntas, cerca de sete minutos. O resultado traz uma nota, o mapa de seis capacidades (ferramenta, contexto, instrução, rotina, decisão e critério e medida) e três prioridades para os próximos 30 dias.
Para montar as regras fixas do passo 4, o material gratuito Regras de interação com a IA traz modelos prontos.
Pontos principais
- A IA generativa escreve bem e erra com segurança. Ela pode inventar julgados, e a responsabilidade pela peça continua sendo do advogado.
- O Conselho Federal da OAB aprovou em novembro de 2024 recomendações para o uso de IA generativa na prática jurídica, com foco em sigilo, ética e transparência com o cliente.
- O primeiro passo é uma política de uso de uma página: o que pode entrar na ferramenta, o que nunca entra e quem revisa o quê.
- Anonimizar o caso antes de colar resolve a maior parte do risco de sigilo sem impedir o uso.
- As primeiras tarefas devem ser de baixo risco: resumo de reunião, mensagem ao cliente em linguagem simples e organização da semana do escritório.
- Nenhuma citação de lei, súmula ou julgado vai para a peça sem conferência na fonte oficial.
Perguntas frequentes
Advogado pode usar ChatGPT ou Claude no trabalho?
Pode. Não há proibição da OAB ao uso de IA generativa. O Conselho Federal aprovou em novembro de 2024 recomendações de uso que tratam de sigilo, ética e transparência com o cliente. A responsabilidade pelo conteúdo da peça continua sendo do advogado.
Posso colocar dados do processo na IA?
Com cautela. As recomendações da OAB pedem atenção especial a dados que identifiquem o cliente, e a LGPD se aplica aos dados pessoais envolvidos. O caminho prático é anonimizar o caso antes de colar e nunca inserir documentos sob segredo de justiça.
A IA pode fazer pesquisa de jurisprudência?
Não como fonte final. Assistentes de IA generativa podem criar julgados inexistentes com aparência real, e tribunais já aplicaram multa por litigância de má-fé em casos assim. Use a IA para organizar a pesquisa e confira cada precedente nas bases oficiais.
Preciso avisar o cliente que uso IA?
As recomendações do Conselho Federal da OAB orientam transparência: informar o cliente sobre o uso da ferramenta, o contexto e as limitações no caso concreto. Defina na política do escritório como e quando essa comunicação acontece.
Qual é a melhor IA para advogados?
Nenhuma é a melhor em tudo. Para começar, use o assistente que o escritório já paga, em conta da empresa e com a privacidade configurada. Ferramentas jurídicas especializadas fazem mais sentido depois que o escritório domina o básico.
Por onde um escritório pequeno deve começar?
Pela política de uso de uma página e por três tarefas de baixo risco: resumo de reunião com cliente, mensagem ao cliente em linguagem simples e organização da semana. A produção de peças vem depois, com a regra de verificação de toda citação.
Fontes
- OAB Nacional: OAB aprova recomendações para uso de IA na prática jurídica
- OAB SP: OAB divulga recomendações para uso da inteligência artificial na prática jurídica
- GEN Jurídico: a IA generativa e as recomendações do Conselho Federal da OAB
- Migalhas: TSE multa advogado por usar julgados inexistentes criados com IA
- Planalto: Lei Geral de Proteção de Dados, Lei 13.709/2018
Fundador da Vinq. Há quinze anos trabalha entre desenvolvimento, marketing e crescimento. Conduz os oito encontros do programa individual da Vinq e permanece como advisor do dono da empresa do início ao fim do programa.

